Carta aos meus filhos

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Por Estela Meyer

Oi.
Não sei bem como começar, mas essa sou eu. A mãe de vocês.
Não exatamente ainda. Mas, quem sabe vocês me escolham entre tantas outras.
Eu não sei ao certo quando vocês vão aparecer, mas eu quero muito que vocês venham.
Bem, acho que não preciso dizer muita coisa, já que teremos bastante tempo pra conversar, eu espero.
O que eu posso dizer…
Eu já sou uma adulta. Eu acho. Pelo menos é o que minha carteira de trabalho diz. (Se depender do meu peculiar senso de humor e estranho gosto por trocadilhos e piadas ruins, já não tenho tanta certeza. Heheheh).
Queria dizer que já fiz bastante coisa nessa vida. Já vivi uma vida chata, uma vida louca, uma vida calma, uma vida intensa. E sabe, tudo valeu a pena, tudo mesmo. Mas ainda falta algo. Eu sinto isso. Talvez esse “algo” seja vocês.
Talvez esse vazio que carrego fique um pouco menor quando vocês vierem.
E não tenho muito como convencer vocês. Porque sabe, o mundo aqui anda um pouco “confuso”. Viver nesse planeta é atualmente uma tarefa não exatamente “fácil”. Não estou falando isso para assustar vocês, mas é só pra dizer que o desafio é grande.
De qualquer maneira, quero dizer que já até imaginei formas muito criativas de contar ao pai de vocês quando chegar a hora.
Bem, já devem ter notado que eu sou um pouco apressada, não é!? Adultos tem disso. A ansiedade é comum na gente.
Aliás, eu preciso falar um pouco sobre os adultos.
Queria que soubessem que os adultos são estranhos.
Alguns muito, muito estranhos.
Alguns malvados.
Alguns malvados que fingem ser bonzinhos.
Alguns bonzinhos que fingem ser malvados.
E alguns bonzinho que… são bonzinhos mesmo.
E muitos são indecisos. A maioria, na real.
E muitas vezes a indecisão nos afeta de tal maneira que só queríamos por um pouquinho de tempo voltar a ser criança, pra não precisarmos decidir tudo sozinho.
Decidir tudo é bem cansativo, sabe?!
Porque não, a gente NÃO tem certeza de tudo. Mas a gente faz de conta que sabe, só pra parecer adulto.
E não há como negar, nesse quesito somos ótimos: fingimos MUITO bem. Fingimos saber as respostas e o caminho. Fingimos não estarmos tristes. Fingimos que não dói.
Mas a gente sente tudo. Tudinho.
E a gente chora. Na maioria das vezes escondido.
E sabe, juro que não entendo o porquê.
Dizem que é pra não precisarmos explicar e não mostrarmos que também sentimos ‘coisas’.
Eu sei, é bem estranho alguém não poder ‘sentir coisas’ e chorar na frente dos outros.
Adultos são sim estranhos.
São complicados, cheios de manias e muitos são bem chatos.
Mas muitos são bem legais, sabe. Guardam com cuidado a criança que têm dentro de si.
Sabem rir e não se preocupam tanto se colocaram a blusa do avesso.
E muitos ainda guardam brinquedos em casa.
Vou te contar um segredo: uns até brincam e jogam vídeo game. (Esses não sei se são considerados exatamente adultos e eu me encaixo neste grupo.)
Pois é, não sei dizer quando me tornei adulta.
Será que foi no dia que fiz 18? Ou no dia que me formei? No dia que comecei a namorar? Ou no dia que paguei meu primeiro boleto?
Talvez no dia que comprei talheres de gente grande e fui morar sozinha…?
Juro que não sei.
Vai ver nunca me tornei adulta. Só passei o primeiro estágio da infância.
Talvez agora esteja no segundo estágio. Aquele onde a vida te cobra. Cobra que você seja perfeito. Que saiba direitinho o que quer. Que tenha um emprego estável e guarde dinheiro. Que seja educado, que não estacione em fila dupla, vote consciente e pague todas as contas e impostos em dia. Saiba o hino nacional todinho, como abrir uma garrafa de vinho e trocar pneu.
É… ser adulto não é tão simples não. Mas tem lá suas vantagens. Como por exemplo: poder comer chocolate a hora que quiser. (É, embora alguns pareçam mesmo ser adultos, no fundo somos todos eternas crianças.)
Bem, um dia vocês vão entender.
E vão perceber que por mais que o mundo ainda gire em torno do dinheiro, o que vai importar mesmo é quem nós amamos nessa vida.
Que ainda existem pessoas boas e que sorriem de verdade.
Que tem coisas que nem todo o dinheiro do mundo comprará.
Que tem momentos que foto nenhuma vai capturar.
Que sonhos se realizam, sim.
E que por mais que algo pareça difícil, se há amor envolvido, sempre vale a pena.
Então, não sei se fui muito convincente. Não queria assustá-los. Este mundo é louco, imprevisível, incerto e vai dar medo… Viver aqui não nos dá muitas garantias.
Mas de uma coisa tenham certeza: o meu amor por vocês será o maior do mundo.
Um beijo,
Mamãe

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Quando tudo parecer perdido, sem sentido ou estranho, leia isso.

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Por Estela Meyer

Venho apenas pra lhe avisar: vai acontecer.
É só pra lhe tranquilizar.
Vai.
Quando você menos esperar. E no dia já esperado.
Vai.
Talvez você irá duvidar, é normal.
Eu sei, a gente acaba se acostumando com a aparente incoerência.
Mas vai.
Uma hora aquela ficha vai cair.
Aquela maior de todas. Aquela única, fundamental e tão esperada.
Acalme-se, pois ela virá.
E tudo vai se encaixar.
Aparentemente soará como um milagre. Talvez uma libertação, não sei.
Mas ela virá.
Quando, finalmente, todas os encontros e desencontros farão sentido.
Quando tudo de péssimo, ruim, normal, bom e ótimo serão uma coisa só. Homogeneamente.
Todas as situações se unirão, perfeitamente como peças de um enorme e grandioso quebra-cabeça.
E tudo, tudo vai fazer sentido.
Até aquilo que parecia mais sem sentido que aconteceu.
Aquilo que você pensou ser uma enorme besteira, um ridículo engano ou uma inconsequente perda de tempo.
E talvez demore um pouco. Ou não. Pois quando acontecer, (e sim, vai) você terá outro parâmetro para a temporalidade.
Mas lhe digo antecipadamente que vai ser um momento mágico. Uma epifania.
Quando, finalmente a grande ficha cair.
E sim, ela vai.
Talvez você sinta uma compreensão incompreensível.
Talvez você aja no impulso da defesa. Talvez você pense: estou pronto?
Talvez você diga: mas já?
Talvez você olhe ao redor e já não reconheça mais as coisas como eram.
E vai estar tudo, tudo estranhamente bem.
Pois a sensação de leveza será notável, inegável, indiscutível.
Como quando a tempestade passa e só o que fica é aquele confortável cheiro de grama molhada. Provavelmente você vai se surpreender, mas logo terá a certeza que tudo está como deve estar.
Sim, vai.
E após o choque inicial você sentirá um êxtase e uma completude inexplicáveis. Como se tivesse alcançado algo extraordinário, magnífico, divino e sublime.
Palavras então já serão inúteis.
E seu único sentimento será, finalmente: “VALEU A PENA”.
Estela Meyer

O maravilhoso mundo dos intensos_ Estela Meyer

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Ser intenso é ser mais do que inteiro.
Mais que completo. É ser transbordante. Abundante.
Eu acho lindo quem não admite ser raso. Quem se entrega, se doa, quem faz e acontece. Quem encara um desafio só pelo gostinho, quem sai da platéia e vai ser jogador.
Quem se joga e quem joga, até descalço. Não importando que faltem 10 minutos pra acabar a partida.
Gosto de gente que enfrenta, que luta, que argumenta, que esgota até dizer chega.
Admiro quem não se cala, quem tem palavras de sobra, quem inventa moda e não sossega.
Gosto da bravura, da luta, da lágrima.
Me encanto com pessoas e verdades inteiras, sem vírgulas, sem traços, sem “se”.
Adoro surra de like, surra de áudio, surra de beijo.
Gosto de firmeza. Nas promessas, palavras e apertos de mão.
Os abraços, gosto mesmo daqueles de verdade, os generosos, os de faltar o ar, os quebra-costela.

Rir até doer a barriga.
Dançar até doer o pé.

Experimentar, ousar, explorar, movimentar, mergulhar. Adoro.
Adoro quem faz questão, quem tenta até o último suspiro e quem suspira de tanto tentar.
Adoro corações transbordantes e mesas fartas.
Não é o simples exagerar, desperdiçar, esbanjar. Mas é além do completar, sustentar, abastecer. Algo que flutua entre esses dois universos, onde jamais se passa fome nem vontade.
Tom pastel, monotonia e meias porções nunca me serviram bem.
Intensidade aqui meu caro, é prato cheio.
Por Estela Meyer

 

Maturidade emocional: a vida com menos drama

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Por Estela Meyer

A gente aprendeu com a TV, desde pequeno, que pra ter graça é preciso ter drama.
As novelas, os desenhos e os filmes nos ensinaram isso.
Uma boa e envolvente trama continha reviravoltas, suspense e muita tensão. A gente viu que só é divertido se tem drama. Realmente funciona bem pra TV, mas na vida real a gente gosta de paz, pelo menos na maior parte do tempo, não é!?

Mas o que isso tem a ver com maturidade emocional?

Você descobre que está mais maduro emocionalmente quando as situações caóticas, estranhas, dramáticas ou bizarras acontecem ao seu redor, mas elas não te afetam mais tanto como no passado. Você sente tudo, sim. Angústia, ansiedade, medo, raiva (ou seja lá o que for), mas isso já não dura por tanto tempo como antes. Você já não faz mais tanto drama.
Você sente, sim. Você sofre, sim. Até chora e se descabela talvez. Mas o sofrimento já tem prazo, e este é cada vez mais curto.

Às vezes a gente nem se dá conta de quão rápido foi se recuperar daquele tombo dessa vez. Mas é só vasculhar no passado e ver que, provavelmente, você vai encontrar alguma situação semelhante onde antes você demorou meses, ou até anos pra sair daquele enrosco e que dessa vez não se passaram mais que alguns dias ou semanas.

Acredito que a palavra também seja DESAPEGO. A gente passa a não mais querer reter aquela confusão toda. Já não é mais atraente, passa a ser cansativo e chato demais e a gente simplesmente deixa ir. E é tão gostoso né!? A gente sente os ombros mais leves e a vida parece que flui. A gente não se culpa mais tanto e não se cobra tanto também. A gente já sabe se perdoar e perdoar o outro mais facilmente, porque a gente já dá mais valor ao tempo, reconhece como é precioso, então já não fica mais chorando rios por coisas tão fúteis. A gente se descobre como um ser incrível, cheio de potenciais e por isso já não aceita mais qualquer coisa.

A gente passa a reconhecer o outro como um instrumento para a nossa própria evolução. Já que não podemos nos ver com nossos próprios olhos, o mundo nos dá o outro, como espelhos, como exemplos, pra gente avaliar o que nos agrada ou não. Como disse sabiamente Paramahansa Yogananda: “Só um outro é capaz de nos dar inteiramente a nós mesmos.”.

Se você se reconhece agora como alguém que vive com muito menos “dramas”, parabéns, você está mais maduro emocionalmente.

Os perrengues da vida vão continuar acontecendo sim, mas eles já não mais te definem, você é o líder agora! Você é quem manda, você é quem estabelece regras e prazos. Você decide, porque já sabe muito bem o que cabe e o que não cabe mais na sua vida.

Finalizo com este fabuloso ensinamento retirado do livro “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer”, de Sogyal Rinpoche:

“1.
Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Eu caio…
Estou perdido… Sem esperança.
Não é culpa minha.
Leva uma eternidade para encontrar a saída.

2.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim leva um tempão para sair.

3.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio… É um hábito.
Meus olhos se abrem.
Sei onde estou.
É minha culpa.
Saio imediatamente.

4.
Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.

5.
Ando por outra rua.”

Esse é o caminho do autoconhecimento.
E sabe qual o melhor disso tudo!? Não tem volta!
Daqui é só frente e pro alto.
E sabe, a vista lá de cima vai valer por tudo isso.

Estela Meyer

Um mero presságio

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Ela não amaldiçoa você, não mesmo.
Apesar de tudo ela só quer o seu bem. E quer te ver bem. De coração e de alma ela deseja isso. Mas ela tem apenas uma simples e inocente previsão: que um dia – daqui alguns meses ou quem sabe anos – quando estiver sentado em algum lugar qualquer, contemplando, pensando, olhando ao longe, por algum motivo – algum minúsculo e quase imperceptível motivo – você vai lembrar.
Pode ser que se lembre da risada dela e de como ela gostava de te incomodar só pra ver seu sorriso.
Vai lembrar também que ela adorava olhar nos seus olhos e te fazer carinho. O melhor carinho do mundo. O carinho que te transportava para outros mundos. Aí vai fechar os olhos e vai tentar sentir. Vai querer sentir. Vai respirar fundo, esquecer de tudo e vai apenas sentir.
E uma sequência de imagens e memórias subitamente virá.
Talvez comece lembrando do abraço dela… o mais gostoso e confortável, aquele com jeito de casa.
E virá em sua memória o seu jeito peculiar de vestir e de como ela falava rebuscado às vezes.
A textura da sua pele, as formas do seu corpo e de como ele se encaixava tão bem com o seu. Os beijos, que mesmo os mais pequenos, continham tanta paixão e doçura que praticamente conseguirá sentí-los de novo. Vai lembrar como tudo parecia leve e como o tempo andava numa velocidade diferente.
Vai lembrar das manhãs, das tardes, das noites. Das surpresas, aventuras e segredos. Dos planos, dos sonhos, das loucuras. Da textura do seu cabelo, das suas mãos e daquela cicatriz.
Vai lembrar até de algumas manias chatas e melindrosas dela, de como ela ficava brava às vezes e vai admitir sentir saudade até disso.
Por alguns segundos poderá até ouvir a sua voz. Falando ao seu ouvido. Naquele tom doce, suave, baixinho. Contando como foi o dia e perguntando como foi o seu. Vai ouvir sua risada e vai rir junto de alguma piada que era só de vocês.
Vai sentir o abraço apertado, vai ouvir o suspiro e vai suspirar junto. Vai lembrar daqueles olhos… aqueles misteriosos, enigmáticos, profundos e inesquecíveis olhos que já viram o mundo.
Vai lembrar como ela parecia fazer tudo ficar mais bonito, mais interessante, mais colorido, mais brilhante.
De súbito, num ímpeto, vai pegar o celular e querer mandar uma mensagem pra ela. Dizendo o quanto você sente sua falta. Falando sobre o quanto você queria tê-la e sentir seu cheiro nem que fosse por 10 minutos. Sentir sua pele e seu carinho. Sentir sua alma e seu coração batendo de novo daquele jeito como nenhuma outra fez bater.
Mas… já é tarde demais.
O tempo passou.
A vida andou.
E você vai apenas lembrar.
Melancolicamente vai lembrar.
Talvez, por alguns segundos irá se lamentar, se punir e se cobrar.
Sentindo aquele desconforto típico frente ao imutável.
A frustração diante do intangível.
A resignação perante o incontestável.
Aí então vai buscar se conformar.
Pois é apenas – e só isso – que vai restar.

Estela Meyer

Ele também te procura ;)

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Já parou pra pensar que ele também te procura?
Talvez ele não tenha se dado conta ainda, mas ele quer muito te encontrar.
E mesmo não sabendo quem você é ou em que parte do mundo esteja, se tem os olhos verdes, se você sua nas mãos quando está nervosa, ou gosta de sushi. Ele só sabe que quer te conhecer.
Já se deu conta de que ele talvez deite na cama e queira sentir seu corpo ao lado dele? Que sentado em frente ao mar, ele pense que seria legal se você estivesse ali pra ele te contar aquela história de como ele se queimou de sol no último verão?
Que embora ele ache que você provavelmente não entenda bulhufas sobre carros ele quer mostrar que comprou rodas novas? E não quer mostrar a qualquer uma. Tem que ser você.
Porque é você que ele quer.
Ele anseia por compartilhar coisas com você. Te mandar uma foto da macarronada que fez ou daquele pôr-do-sol de verão.
Parou pra pensar que talvez ele também já esteja cansado dos casos de uma noite, das paixões rasas, dos relacionamentos mornos? Cansado dos quase amores, aqueles que mal resistem à primeira briga, sabe?
Pois é…
Ele, mesmo descrente, ainda guarda aquela vontade de ter você.
Ele também te procura no meio dos olhares da multidão e nas pessoas que entram na cafeteria.
E tem que ser só você.
Ele também anseia pelo dia em que essa mágica ainda oculta – que cientista, filósofo ou poeta algum conseguiu explicar- aconteça. Essa mágica que uns chamam de acaso, outros, sorte, alguns dizem ser destino, finalmente una vocês. O momento que os seus olhares vão finalmente se cruzar. O momento do encontro de duas almas.
Ele até tenta parecer indiferente, mas há nele, uma angústia controlada pelo dia que vai finalmente te conhecer. Pelo dia que vocês vão sentar em um lugar qualquer e ficar se perguntando “como a gente foi se encontrar”?
Talvez nesse exato momento ele esteja pensando onde você poderia estar.
E esteja sentindo falta daquele abraço.
Aquele que faz o tempo parar: o seu.

Estela Meyer

O mito grego com um leve sotaque gaúcho

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Vou te contar uma história bem legalzinha.
É um “causo grego”.
Aconteceu há muito, muito tempo atrás. Foi antes no nokia 5125. Ih! Beeeem antes (pra tu ter uma noção de como é antiga a história).
Se passa na época do Império Grego.
É a história de um cara.
Filho de uma ninfa chamada Liríope e o pai era um deus lá, o ‘Deus do Rio’ conhecido como Cefiso.
Alguns dias antes de ele nascer, seus pais queriam saber o que seria do futuro do guri e procuraram o oráculo através de um cara cego, um tal de Tirésias, que diziam ser o ‘bambambam’ das profecias de Tebas. (Dizem que ele ficou cego porque se meteu numa treta cabulosa entre Zeus e Hera. É… vai ver que daí que saiu aquela velha frase: “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Também… foi se meter justo com os deuses mais poderosos do panteão… é pedir pra levar né!?)

Chegando lá o profeta disse algo assim: “Mew, na real, tudo certo com esse guri, desde que ele não veja a si mesmo, nem por um espelho. Se for assim ele vai viver muito.”.
Beleza. Os pais então saíram mais tranquilinhos e seguiram as orientações do oráculo.
O jovem foi crescendo e se transformou num belo rapaz.
Mas não era qualquer rapaz. Ele simplesmente era “O cara”. Não só bonito. Tri bonito. Ele era um gato. Segundo fontes seguras, antigamente diriam “um pão”. Aqueles olhos dele, gente, um troço. Hipnotizantes. E ele tinha porte sabe. Parecia um leão andando. Dominador, rei da floresta. Se fosse nos dias de hoje talvez ele teria um carro com um ronco forte e com rodas envenenadas como escorpiões.
O magnetismo dele era do tamanho do seu ego e ele sabia disso.
E a mulherada era enloquecida nele… Como se diz aqui no sul: o chinaredo véio caía matando no corpinho.
Aquela ninfarada cercava ele por todos os lados, mas ele se achava tão demais que só tinha olhos pra ele mesmo. E vendo tantas opções aos seus pés, fazia questão de ignorar e desprezar todas elas. Ah, como ele adorava isso. Sabe aquele cara que visualiza e não responde, não escuta os áudios e sempre tá ocupado? Esse aí mesmo. Mas mesmo assim elas se botavam feito bicho no homem!

Distante dali, lá pros lados do Monte Helicón, morava uma bela e jovem ninfa chamada Eco.
Ela adorava passear pelas montanhas e bosques. Cantava e encantava a todos com sua linda voz. Ela era uma querida sabe, até meio bobinha às vezes. E um de seus defeitos: ela falava demais. Tagarela que só. E se metia numas confusões por ser tão tagarela. Mas ela só queria usar o que tinha de melhor: sua voz.
Aí Zeus, que era muito safadjeeenho e gostava de estar no meio das ninfas, havia usado do dom da fala de Eco para distrair a esposa pra ela não sacar que ele estava no meio do furdunço. Hera, malandramente sacou qual era o esquema ali e condenou Eco a para sempre repetir apenas as últimas palavras das frases que os outros diziam. A ninfa perdeu assim seu mais precioso dom, aquilo que mais amava.
Bah, uma lástima pra guria.
Aí lá estava ela, vagando pelos bosques, curtindo uma bad, quando viu o tal rapaz.
Foi amor à primeira vista. Aquele cara fez bater mais forte o coraçãozim da mocinha.
Mas, como não podia falar por causa da maldição, ela só o seguia.
O rapaz, que tava perdido (sem waze ou maps é brabo né!?), perguntou: “Tem alguém aqui?”
E a ninfa só podia responder: “Aqui, aqui, aqui…”.
E ela o seguia, cada vez mais apaixonada. Pensando como poderia fazer para se comunicar, já que não tinha voz.
Massss, mulher apaixonada dá um jeito sempre né!
Ela o encontrou e meteu um mimiquês loco pra declarar que o amava profundamente e estava disposta a viver uma história verdadeira com ele.
O cara, sempre acostumado a dar foras em todo mundo falou algo assim: “Onde já se viu, eu me apaixonar por uma moça muda? EU, que tenho centenas de mulheres aos meus pés? EU, que sou o mais fodástico de toda Peloponeso? EU, que já passei o rodo em toda Atenas, Esparta e Corinto vou me contentar com uma só e muda ainda por cima? Vai te catar loca. Sai daqui.”.

Eco então caiu numa deprê violenta. Bah, o negócio foi tenso.
Tão tenso que a guria foi bater lá na casa da Afrodite, implorando por ajuda. Pedindo que ela tirasse sua vida.
Afrodite deu um fim no corpitxo de Eco, mas manteve sua voz, pois era muito linda.
As ninfas se doeram pela colega e cansadas dos gelos do moço foram até Nêmesis (a deusa da vingança e retribuição) e pediram um apoio moral.
Nêmesis já sabia do lance e disse: “Xá comigo que eu resolvo.”.
Foi lá e jogou uma maldição no moço, que o faria provar do seu próprio veneno. Que ele iria se apaixonar por alguém de tal maneira, mas nunca iria poder tocar o ser amado.
Eco disse: “Beleza gurias, valeu, tamo junto, unto, unto.”.
E Eco até hoje vaga solitária pelas cavernas, triste pelo crush tão amado, mas não correspondido.

Sua voz ainda segue o rapaz que um belo dia, já cansado de andar, resolve dar uma cestiada perto de um lago. Aquele lago era tão límpido, calmo e claro que parecia um espelho. Se fosse hoje, uma foto ali renderia muitos likes no Insta.
O rapaz então se aproximou do lago e não pode acreditar no que viu.
Algo inédito: o seu reflexo.
“Finalmente.” ele pensou.
Deu match na hora.
Ele estava caidaço de paixão e simplesmente não sabia o que fazer.
Ele, que tanto procurou essa paixão, finalmente a encontrara.
Ele estendia os braços e via o ser estendendo os braços também.
Via aqueles olhos hipnotizantes e estes o olhavam exatamente igual.
Mexia os lábios e aquele ser que parecia prever tudo o que ia dizendo.
Troço loco demais.
E ele, tomado pelo próprio olhar, se aproximou querendo tocar, querendo sentir aquela paixão com suas mãos. Mas não conseguia e não entendia. E cada vez ia mais próximo, buscando e buscando até que hipnotizado, caiu no lago.
E ele morreu afogado, coitado.
Afogado na sua própria vaidade e arrogância.
Na solidão, no fracasso e na frustração de nunca poder ter de verdade o seu ser amado.
Alguns contam que no local onde ele morreu só encontraram uma flor.
Essa flor, que segundo a botânica é extremamente narcótica, chegando a ser tóxica e que é chamada de Narciso.
Por Estela Meyer