Filme de aeroporto

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Por Estela Meyer

7:45
Malas despachadas.
Mochila nas costas.
Na mão: o ticket, documento, um agasalho e um café que eu poderia trocar por um anel Swarovski, pois o preço é praticamente o mesmo.

Dou uma boa olhada, procurando um lugar estratégico para sentar.
Estou aguardando pacientemente, o voo 5247.

Eu poderia me distrair jogando Dumb Ways to Die, não porque é um jogo difícil, ou desafiador, mas porque eu morro de rir com ele, principalmente quando perco.
Mas o momento não pedia isso.
O momento pedia que eu olhasse. Só isso. Olhasse aquelas pessoas. Não com um olhar crítico, julgador, analisador… Mas com um olhar curioso. De que quem é uma observadora nata.

Enquanto poupava os goles do café, eu vi pelo vidro dois jovens. Ambos na casa dos 30 anos. Conversavam em frente ao portão de embarque internacional. Quem fica conversando em frente ao embarque internacional? Se vão viajar juntos, então entrem e conversem dentro da sala de embarque! É… mas é claro, eles não ia viajar juntos. E não deu pra notar isso só pela observação lógica. Deu pra notar isso pela inquietude das pernas do rapaz, pela insistência dela em mexer no cabelo e pelos pigarros de vez em quando. Alguma coisa estava engasgada ali. Deu pra perceber que era uma despedida, pelo jeito como ele a acomodou em seu peito e acariciou seus cabelos. E quase pude ler os seus lábios que diziam algo do tipo “vai ficar tudo bem”.

Sabe aquela campainha clássica de aeroporto? Aquela danadinha exerce um poder estranho sobre as pessoas. Ela acorda, mexe, te tira do transe. Ela separa pessoas também. Mas ela só faz o seu trabalho: avisar que já é a hora. A hora de ir. De deixar. De partir. E de deixar partir também. Quanta crueldade, que sina essa da pobre campainha do aeroporto.

Campainha toca, o aviso é dado. Hora de ir.
Longo abraço.
Olhos marejados. Tentando segurar o choro na garganta e matar no peito.
Olho no olho.
– Tchau.
– Tchau.
Braços se desenlaçam e os centímetros de distância aumentam.
Ela abaixa a cabeça e ganha um beijo em seus cabelos, ele suavemente levanta seu queixo e dá um sorriso de quem está fazendo um esforço enorme para fingir que está tudo bem.
Ela vira e dá alguns passos. Passos que pesam uma tonelada.
E volta.
Só mais um último rápido abraço, aquele meio sem jeito, meio desengonçado, mas ele é necessário. É a última raspada no pote de nutella, o último gole de café, última gota… porque ela quer tudo, e ele também… mas tem que ser rápido pois a campainha também tem esse poder, te deixar com uma pressa do caramba, aquela maldita destruidora de corações.

Ela entra. Ele sai.
E a vida segue.

Essa era a hora que poderia tocar uma música e subir as letrinhas? Não, não…
Esse foi só o começo de mais uma história. E várias outras.
Ah os aeroportos… testemunhas silenciosas da maior coletânea de filmes baseados em fatos reais.

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